Olha, eu não sou muito de falar palavrões, mas é óbvio e ululante que tem horas que somente um bom palavrão expressa o que a gente quer dizer. Além do que, muitas vezes ele é usado como um reforço. Explico: uma vez, em um seminário no Instituto Goethe, estávamos com a missão de exemplificar o que um estrangeiro deveria aprender quando chegasse ao Brasil e vice versa. Eu, lógico, tive a brilhante idéia de dizer que o estrangeiro deveria aprender, entre outras coisas, palavrão. E mais: que certos palavrões funcionavam justamente como reforço. Como por exemplo: "Gente, tá uma puta chuva" ou "Robert De Niro é um puta ator". Os professores do meu grupo de trabalho ficaram de queixo caído e se negaram a falar sobre isso, mas quando chegou a nossa vez de expor o que pensávamos, eu me levantei e expus a minha opinião.O que ouvimos a seguir foi um diretor do Goethe da Alemanha dizer que já tinha viajado por vários países e anotado centenas de idéias, mas que esta tinha sido a primeira vez que ele tinha ouvido isso sobre palavrões e que tinha adorado. Claro, fiquei toda toda, me achando, hahahahahahaE o texto a seguir, que me foi enviado como sendo de autoria de Millor Fernandes (mas parece que não é), vai mais ou menos por esse caminho. Divirtam-se. E, se não gostarem, foda-se. HAHAHAHAHAHAHHAHAO nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional a quantidade de
foda-se que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do
foda-se!? O
foda-se! aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta.
- Não quer sair comigo ? Então foda-se!
- Vai querer decidir essa merda sozinho (a) mesmo? Então foda-se!.
O direito ao foda-se! deveria estar assegurado na Constituição Federal.
Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.
Prá caralho, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que
Prá caralho? Prá caralho tende ao infinito, é quase uma expressão matemática.
- A Via-Láctea tem estrelas prá caralho, o Sol é quente prá caralho, o universo é antigo prá caralho, eu gosto de cerveja prá caralho, entende?
No gênero do Prá caralho, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso
Nem fodendo!. O Não, não e não! é tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma
credibilidade Não, absolutamente não! o substituem. O Nem fodendo é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo: Marquinhos
prestenção, filho querido, NEM FODENDO!. O impertinente se manca na hora!
Por sua vez, o
porra nenhuma! atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional: ele redigiu aquele relatório sozinho
porra nenhuma!. O
porra nenhuma, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos aspone, chepone, repone e mais recentemente, o prepone - presidente de porra nenhuma. Há outros palavrões igualmente clássicos.
Pense na sonoridade de um
Puta-que-pariu!, ou seu correlato
Puta-que-o-pariu !, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer
puta-que-o-pariu! dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.
E o que dizer de nosso famoso vai
tomar no cu!? E sua maravilhosa e reforçadora derivação
vai tomar no olho do seu cu!. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta:
- Chega! Vai tomar no olho do seu cu!.
Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e sai a rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar:
Fodeu!. E sua derivação mais avassaladora ainda:
Fodeu de vez!. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? Fodeu de vez!!!!